VII) Exemplo de reparação:
Qualquer pianos, mesmo que seja de uma construção fiável, é constituído por peças eu se usam e gastam e necessitam de ser substituídas e ser alvo de manutenção para que o piano guarde as suas qualidades de origem.
Com efeito, oiço frequentemente clientes que dispõem de pianos com apenas alguns anos de parca manutenção a dizer “Sabe, o meu piano não é grande coisa e já está muito velho.” Ora, por vezes, os pianos em questão são relativamente recentes (para um piano) e não pior do que qualquer outro.
Portanto, sim, o toque do seu piano é desigual, não permite fazer correctamente as nuances, as teclas prendem, o teclado é pesado, o som é abafado, certas notas são mais fortes que outras, a mecânica fazem barulhos, etc.
São sinais evidentes de que o piano precisa de manutenção!
Vejamos em detalhe o que se pode fazer.
O nosso exemplo é o de um cliente que tem ainda o seu piano de infância, já na altura comprado usado. A senhora tem um bom nível e é bem visível que o piano foi muito utilizado. Resumindo, o nosso “paciente” é um piano Diezer (marca francesa de Marselha), de 1935 que, antes de mais, aguenta a afinação e funciona correctamente.
Se esse não fosse o caso, seriam necessárias reparações pesadas e profundas, o que, para já, não é o objeto deste artigo. Partimos de um piano com boa saúde, que necessita de ser recolocado a um nível correcto para lhe devolver, na medida do possível, o seu estado de origem.
Tratando-se de um piano de 1935, partimos, mesmo assim, com um certo handicap, mas que podemos melhorar, sem contudo, e evidentemente, não ser possível colocá-lo ao nível e com os parâmetros de um piano actual. De doto o modo digo à minha cliente que esta cura de juventude a operar no seu piano, não o transformará num piano novo.
Como podemos então melhorá-lo?
Lembro-o de que um piano é composto por três elementos essenciais:
O móvel (no nosso caso, encontra-se num estado médio, mas a minha cliente tem pouco interesse na estética, e um tratamento à base de óleo de linhaça poderá melhor o aspecto geral do piano com relativa facilidade.
A estrutura harmónica. No nosso exemplo está de boa saúde e o piano aguenta a afinação. É necessário substituir algumas cordas partidas, mas nada de anormal para um piano desta idade.
A mecânica e o teclado apresentam sinais evidentes de uso e será com certeza nestes elementos que iremos trabalhar.
Recondicionamento da mecânica:
À primeira vista, a mecânica tem ar de estar em bom estado, mas podemos olhar mais de perto.
Os martelos, por exemplo, estão já muito marcados pelas cordas e estão até planos no ponto de toque. Abafam as cordas quando lhes tocam, daí o som pouco agradável do nosso piano. Dada a idade do instrumento, vamos substituir os martelos.
Desmontamos os martelos e enviamo-los a um especialista que recolocará feltro com a mesma qualidade daquela original. Em alternativa, poderíamos colocar hastes e cabeças de martelos com feltro de alta densidade e qualidade, sempre adaptados à época do instrumento.
A seguir limpamos a mecânica, fazemos uma revisão, ou seja, verificamos que todos os parafuso estão bem apertados, que os diferentes eixos e pivots estão em condições, sejam com folga a mais ou a menos. E já agora, em relação à limpeza, se o seu piano não é assistido há muito tempo, da próximo vez que chamar um técnico de piano, peça-lhe para o limpar. Gastará apenas cerca de meia hora a 45 minutos, e essa limpeza é essencial para a boa manutenção de todas as peças.
Aproveitamos igualmente para alinhar todas as peças da mecânica de forma optimal, conforme seria no seu estado original. Em certas mecânicas muito frágeis, este processo poderá ser bastante demorado. Mas não é o caso do nosso Diezer.
A seguir grafitamos as peças que precisam:
Na verdade vamos lubrificar todas as peças da mecânica sujeitas a fricção, com a ajuda de grafite. Trata-se de um lubrificante seco que dura muito tempo e evita que a madeira se desgaste. Pode aplicar-se com um pincel ou com um lápis e requer alguma prática e habilidade, caso contrário sujamos a mecânica toda com uma matéria que será muito difícil de limpar.
(na imagem podemos ver, à direita, as primeiras três alavancas de cavalete ou varas já grafitadas)
Para já deixamos a mecânica e vamos pormos de volta do teclado:
No nosso exemplo, o teclado está todo estragado, partido, lascado e partido. A sensação ao toque era verdadeiramente desagradável. Optamos por substituir o revestimento por ivorite (matéria plástica) com o efeito mais belo e muito confortável ao toque. Antes disso substituímos todos os feltros guia do teclado, de profundidade e altura de teclado (a vermelho na foto). Agora que terminámos de colocar o teclado, passamos à limpeza e aos acabamentos, limpando os restos de cola e as marcas de sujidade e utilização nos flancos das teclas. Isto não se trata de um luxo.
Antes:
Depois
O chassis do teclado, que suporta as teclas, foi também completamente limpos e os feltros foram substituídos por feltros novos. Eliminamos todos os vestígios de ovos de parasitas que adoram fazer ninho debaixo das teclas. Graças à substituição destes feltros obteremos um toque e regulações mais precisas.
O exemplo das imagens mostra que substituímos também todas as anilhas redondas em feltro, quer da altura do teclado, quer da profundidade ou trajecto.
O fim dos trabalhos aproxima-se. Os martelos já voltarão do artesão especialista e vamos montá-los na mecânica.
A mecânica e o teclado foram refeitos de novo e seguem-se longas horas de regulação mecânica e harmonização (trabalho no timbre do piano através de intervenção nos martelos).
O resultado nota-se bem. O piano está agradável e o som é mais redondo nos graves e mais preciso nos agudos. E isso vai melhorar dentro de algumas semanas quando o feltro se moldar completamente.
Terão sido necessárias pelo menos cerca de 30 horas de trabalho para este piano, em grande parte por causa da sua idade avançada. Mas o resultado é interessante e este piano continuará, durante algumas dezenas de anos a prestar serviço à sua proprietária e aos seus filhos que entretanto começaram a aprender a tocar piano.
Não hesite em me contactar e pedir um orçamento de reparação para o seu piano.
Agradeço uma vez mais a ajuda do meu colega francês Alain Chauvel na elaboração destes artigos, bem como a todos os colegas franceses, belgas e espanhóis com os quais tive contacto, directa ou indirectamente.
Aproveite para conhecer os seguintes sítios de vários artesãos, onde poderá igualmente encontrar muito bons conselhos: